terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

UMA EXPERIÊNCIA MARCANTE NO SACERDÓCIO
Juliano Ribeiro Almeida

Tenho apenas 4 anos de sacerdócio; pouco, porém já o suficiente para me dar conta da infinita beleza desta vocação e da profunda importância deste ministério na vida das pessoas.
Um dos momentos mais fortes no apostolado para mim tem sido a celebração da Penitência. Certa vez, eu estava viajando de ônibus e, ao meu lado, ia uma senhora que, observando meu traje eclesiástico, descobriu que eu era um padre e me perguntou se eu poderia atendê-la em confissão. Eu me dispus a atendê-la assim que o ônibus fizesse uma parada para o lanche, já que em trânsito algumas pessoas poderiam nos ouvir.
Aquela senhora estava há 20 anos sem ir à Igreja; afastou-se por causa do alcoolismo e nunca mais se achou digna de entrar na casa de Deus. Depois de fazer uma rápida mas verdadeira e profunda confissão, eu recomendei que ela voltasse imediatamente a tomar a santa comunhão; ela me agradeceu e seguimos viagem.
Dois anos depois, eu estava celebrando a Eucaristia num dia de folga, na casa de praia de uns paroquianos, quando a tal mulher, que passava na rua, avistou-me, tomou a iniciativa de abrir o portão, entrou e se sentou para participar da celebração. Eu não me lembrava mais dela. Achamos estranha a atitude dela, mas a acolhemos na casa. Após a missa, ela veio beijar minha mão, pediu-me a bênção e se explicou. Ela me fez recordar do episódio da confissão no ônibus e disse: “Padre, vim agradecer-lhe por ter me atendido naquele dia em confissão, mesmo num local impróprio e ter, assim, me levado de volta para Deus. A partir daquele momento, encontrei forças em Deus para nunca mais voltar ao álcool, comecei a frequentar a Santa Missa e comungar; logo ingressei na Legião de Maria, comecei a participar de um círculo bíblico e hoje sou uma pessoa completamente diferente, reencontrei a paz e o sentido da vida”.
Percebi que o encontro pessoal que aquela senhora teve com o amor misericordioso de Deus não foi programado com antecedência; ele se deu como que no “cair em si” do filho pródigo da parábola. Foi um encontro humanamente considerado casual, mas providencial do ponto de vista da fé. Se meu caminho não cruzasse com o dela naquele dia oportuno, talvez ela não tivesse mais a oportunidade do retorno para Deus. Apesar de eu me sentir completamente indigno do sacerdócio que levo em mim, vi claramente quanto bem eu posso realizar como sacerdote, desde que eu deixe a graça de Deus me mover.
Meditando sobre este episódio, eu pude perceber algumas coisas importantes que levarei como aprendizado para toda a minha vida sacerdotal:
·         o padre não é um funcionário que presta serviço em algumas horas apenas; ele é sacramentalmente presença do Cristo pastor em tempo integral, em qualquer lugar em que esteja, em qualquer momento do cotidiano;
·         o caráter missionário da Igreja não pode se limitar à programação pastoral ou ao movimento paroquial; é urgente que as pessoas sintam o presbítero como alguém acessível, com quem podem contar sempre, alguém que vai lhes dar atenção e cuidado (ainda quando essa disponibilidade for difícil);
·         por mais que o próprio padre esteja cansado ou distraído, por mais que, no atendimento dos sofredores, nem ele mesmo esteja esperando seriamente alguma resposta do céu, os poderes espirituais dados por Cristo aos seus ministros têm altíssima eficácia e podem transformar vidas e salvar almas.
·         não é necessário fazer coisas grandes para realizar o sacerdócio de Cristo e alcançar o coração das pessoas; aliás, o ministério presbiteral não consiste tanto em fazer quanto em ser;
·         é conveniente e importante o uso de um traje que distinga o sacerdote na sociedade, não em vista de destaque pessoal ou prestígio e sim para tornar pública sua identidade, que está essencialmente a serviço dos fiéis.
                Ser sacerdote significa ter a garantia de uma existência cheia de razões de ser. Esta senhora me alertou quanto à responsabilidade da vocação que eu abracei. As maravilhas que Deus faz na Igreja por meio do sacerdócio ministerial são incontáveis. Diante de tudo isso, sinto-me impelido a afirmar, como São Paulo: “é pela graça de Deus que eu sou o que sou” (2Cor 15,10).

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